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Abril 2021

Atualizado: Abr 7


86-Ano XXVII-AVB-ABRIL de 2021
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Ano XXVII - Nº 86


Neste Boletim:





A ORAÇÃO E A BUSCA ESPIRITUAL


No ano de 2010, o Senhor chamou dois servos a quem começou a transmitir várias revelações, compiladas numa obra a que Ele mesmo deu o nome ‘O Novo Templo’. No decorrer das revelações transmitidas foi dito ao servo profeta: Este Novo Templo é o Novo Mundo. Diríamos nós que tudo o que foi revelado tinha como propósito preparar-nos atempadamente para os dias vindouros que, para aqueles que estiverem vivos ao tempo, chegarão a entrar na Nova Terra prometida pelo Senhor.

Nessas revelações somos alertados para procurarmos (com tempo) uma forma de buscar o Senhor mais condizente com o Seu desejo; desejo aliás manifesto por Jesus, quando diz como nos devemos juntar com Ele exercitando a autoridade espiritual que Ele nos outorga: Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles. [1]

Na situação sanitária actual, que já se arrasta há mais de um ano, muitos crentes por todo o mundo, cristãos ou não, são aconselhados a não se reunirem colectivamente em seus templos e locais destinados a reuniões, o que a alguns tem servido para os obrigar a reflectir sobre como estabelecer ligação com Deus.

Para nós, cristãos, temos orientação do próprio Mestre e Senhor, pois é Seu desejo que ao invés de cerimónias litúrgicas e outras formas de exteriorizarmos a nossa fé, possamos experimentar aquilo que Jesus disse no Seu evangelho: Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora e teu Pai que está em oculto; e teu Pai que vê secretamente te recompensará.[2] Entendemos que este aposento não é físico, mas espiritual, pois está a falar do nosso íntimo – o nosso coração. Em muitas ocasiões, o nosso Pai nos tem aconselhado esse tipo de intimidade com Ele, pois os dias que vivemos são muito exigentes em termos de comunhão e santidade. Cremos que a Terra está sendo purificada e tal como aconteceu na libertação do povo de Israel do Egipto, o nosso Deus vai fazer separação entre aqueles que estão vivendo uma vida de materialismo e aqueles que são povo do Senhor; diríamos aqueles que são do Egipto (ou mundo) e aqueles que são Israelitas (ou povo de Deus), pois a verdadeira Igreja de Cristo é considerada o “Israel de Deus”.

Já no ano de 2012, o nosso Pai nos alertava para acontecimentos vindouros, nada agradáveis. Vamos citar alguns pontos esclarecedores:


Será vinda do interior da terra a força que limpará o planeta, e pelo fogo e pela água tudo se purifica. Não haverá alma que me escape e nesse dia o Meu povo verá a Minha força e os que de Mim se desviaram irão clamar misericórdia; e ela virá com eternidades de purificação. Tudo se assemelha a um espelho, aquilo que Eu sou está lá e as almas vão olhar e ver, tudo será reflectido no seu interior. O pensamento comanda, ele é dono da vontade, do comportamento, das emoções, ele é o sopro do Meu Espírito revelado em vós. É com ele que traçais o caminho, é nele que se tem de operar para chegardes a Mim. Em primeiro lugar, tendes de tomar consciência da sua existência e do poder da vossa vontade, porque é por aqui que tudo conseguis, este é o caminho. Depois, tendes de moldá-lo, de trabalhá-lo e para isso tendes a Minha Palavra, a Verdade. No Meu livro, Eu vos ensino o que deve guiar o vosso comportamento, o que deveis sentir e isso só por acção do pensamento. A meditação, a contemplação, a oração são ferramentas de trabalho da alma para moldar o pensamento(…) Assim tendes de caminhar e assim tendes de ensinar outros a caminhar...

Nesta mensagem somos alertados para a busca interior a que já nos referimos, meditação, contemplação e oração, como “ferramentas” para não só passarmos em meio às dificuldades protegidos pelo Senhor, como também ajudar outros a voltarem-se para Ele da mesma forma.

Voltando à obra a que fizemos referência no início, em seu capítulo XVII, foi-nos revelado aquilo que haveria de acontecer dez anos mais tarde, com esta pandemia e o seu vírus, cuja figura é sobejamente conhecida. O profeta viu essa figura, comparando-a a algo que desconhecia – um botão com espinhos. Vamos citar o texto em que ele vê o que viria a acontecer, mas infelizmente, não prestámos a atenção devida ao aviso.


E vi eu uma grande praga que estava para vir à Terra, mas não entendi o que era; pois vi muitos milhares de coisas parecidas com botões que tinham espinhos. Esta praga é tão grande que nem o Sol faz derreter esta grande praga; e a praga falou: Não há fogo que possa apagar este fogo


Na continuação desta revelação, o Senhor liga esta praga com as igrejas, pois elas iam sofrer com a mesma, o que realmente está acontecendo. Mas também nos é mostrado que nesta experiência a fé será revigorada e a igreja fiel olhará para os céus, sabendo que a Terra será purificada pela Água da Vida, que tal como o Arco-íris, será multicolor, como foi dito ao profeta:


Naquele dia será visto um tecto de nuvens brancas, e acima das nuvens está um novo rio (uma nova igreja – A Nova Jerusalém) de águas cristalinas; e choverão nesse dia águas multicolores e cristalinas que regarão toda a Nova Terra.


Cremos que brevemente, tudo acalmará e estas águas descerão dos céus, levando milhões a voltarem os seus olhos para o Criador do Universo, dando-Lhe a honra que Ele merece.

Fraternalmente em Cristo.

Irmão Egídio Silva


[1] Mateus 18:19-20 [2] Mateus 6:6.

A obra ‘O Novo Templo” pode ser consultada no nosso sítio na Internet – www.refugiobetania.org






DÁDIVAS DO CÉU


O PAI NOS CONCÍLIOS, NAS IGREJAS E JUNTO ÀS CRIANÇAS



«Toda a vez que dois, três ou mais estiverem reunidos em Meu nome, lá Eu estarei, mas jamais estarei nos concílios. Pois nos concílios reuniam-se com intenções idênticas às dos seus conselhos, dizendo actuar debaixo da Minha inspiração. Discutiam sobre as hierarquias, a sua própria divindade e infalibilidade, e calculavam o grande prejuízo económico que o Templo estava sofrendo, mas nem uma só vez pensavam em Mim. Eu Me sentia com a mesma atenção que uma ameba recebe em relação a todo o Universo. O Meu nome era dito como se Eu fosse um personagem histórico. Alguns trechos da Minha palavra eram acompanhados de uma fé pagã cega e um amor morto, uma adoração sistemática de ídolos e um culto cerimonial originado neles; era isto unicamente o que Me permitiram ser nestes concílios e nas suas reuniões.

Eu Me sinto como aquele governante que é usado pelos seus funcionários como uma cobertura para todas as suas maldades e engodos, daqueles que são colocados e mantidos no trono para dar um cunho de legalidade a todos os decretos e leis deles.

Vede, o mesmo acontece na maioria das Minhas igrejas. Em todos os lugares tentam ocultar-Me aos olhos dos Meus filhos; entopem os seus ouvidos com sons vazios, para que não consigam ouvir a Minha verdadeira voz paternal; cristos de madeira são colocados na frente dos seus olhos, para que não vejam o Cristo Vivo, e com os sinos tornam os seus ouvidos surdos para que não ouçam a Minha voz e não deixam que a Minha palavra viva se manifeste nos seus corações.

Vede, é por isso que Eu aqui Me encontro, para aconselhar-vos contra as palavras dos fariseus egoístas, para que sempre consigais olhar a face do vosso Santo Pai e ouvir a Sua voz viva que diz: “Tornai-vos pequeninos como as criancinhas, para que o Meu Reino seja o vosso. Nisto se encontra a verdadeira sabedoria, enquanto que no amor, a mais verdadeira felicidade.”

Para ti, Meu querido “falador” quero dar um pouco de consolo, tanto quanto para a tua mulher. Já inscrevi os vossos filhos no Meu livro. Diz-lhes que Eu os adoptei como Meus filhos e que desejo ser o seu Pai carinhoso.

Então vou presenteá-los com um desejo Meu: Que eles aprisionem as suas vontades a tudo o que Eu já revelei ao Meu servo e a tudo que ainda revelarei; que eles alegremente obedeçam a seus pais já conhecedores da Minha doutrina. Então eles começarão a perceber o que significa ter-Me a Mim como Pai, este que tem tantos tesouros para dar aos filhos que O amam.

Vós, Meus queridos, ainda tão poucos amigos, sede alegres em vossos corações. Pois Eu estou convosco e Me alegro na vossa companhia e fico feliz com o vosso amor. Esta alegria vos será uma estrela brilhante, quando abandonardes este mundo. Ela vos acompanhará fielmente na longa viagem no Meu enorme Céu e vos levará lá, como já o faz aqui, para a Minha Cidade. Amém.

Bem, agora sede alegres. E aquele que desejar falar Comigo, que fale. Eu soltarei a língua e abrirei a boca deste Meu servo. Mas que fique bem longe de vós toda a curiosidade que se manifeste. Amém. Eu, vosso amado Pai, em Jesus, Meu Filho. Amém.»



(Texto revelado a Jakob Lorber em 29 de Junho de 1840)

EXCERTOS D’O GRANDE EVANGELHO DE JOÃO



A DISTRIBUIÇÃO DE ESMOLAS

E A CELEBRAÇÃO EM MEMÓRIA DE ALGUÉM


«Ao chegarem, são abordados por Iara, que lhes diz: Mas, que demora. Tu, Rafael, já pareces ter adoptado a nossa contagem do tempo. Vinde depressa, pois o almoço já está servido. – Ambos entram e Me saúdam.

O comandante faz menção de Me agradecer pela Minha ajuda. Eu, porém, lhe digo: Amigo, satisfaço-Me com o teu coração. Vamos fortalecer o nosso corpo, a fim de cuidarmos em seguida das coisas espirituais.

Todos agradecem e se sentam à mesa, mas o romano não consegue desviar o olhar do anjo que come e bebe com grande apetite. Por fim não se contém, dizendo com humor: Ignorava que os anjos tivessem tanta disposição para comer. O nosso amigo Rafael até come por três!

Diz Ebal: É verdade. Mas há outro facto mais extraordinário – o seu prato não fica vazio. Aqui aplica-se o provérbio: Aquilo que o Céu tira, devolve-o no mesmo instante. Esta mesa será considerada para sempre como relíquia e anualmente haverá um festejo, no qual os pobres desta zona serão alimentados.

Digo Eu: Deixa a mesa ser mesa e continua tu como eras. Se um pobre te procurar em qualquer dia, ajuda-o sempre, pois uma festa anual não trará benefício a ambos, mormente quando em Meu regozijo. Quem desejar lembrar-se de Mim, que o faça durante todas as horas do dia, porquanto uma comemoração anual não Me satisfará.

Assemelhar-te-ias aos templários em Jerusalém, que o fazem três vezes ao ano, distribuindo pão aos pobres como se ficassem alimentados até à próxima celebração. As oferendas recebidas nesses dias dariam para os templários viverem durante cem anos. O pobre, porém, que se satisfaça com três côdeas anuais. Por isso deixa esta mesa conforme é; tu dar-Me-ás uma festa agradável se ajudares, se possível, diariamente, a um pobre que te procure.

Se por acaso fores procurado dia a dia pelo mesmo mendigo, não lhe perguntes se não existem outras pessoas que o socorram; pois isto o amedrontaria de tal forma que por muito tempo deixaria de bater à tua porta, – e a tua boa obra perderia todo o valor diante de Mim.

Tão pouco é do Meu agrado que distribuas algo entre os preguiçosos, capazes de trabalhar; fá-los trabalhar, a fim de que possam receber comida. Não aceitando serviço, embora sejam fortes, também não devem comer. Agindo deste modo, terás sempre comemorado um dia honroso para Mim. Com tal festividade anual, porém, não Me aborreças.

Em que sentido a época de um ano seria melhor que a de um dia qualquer? Quem, por exemplo, honra o aniversário do pai uma vez por ano, deveria, ao menos, honrar diariamente a hora do seu nascimento.

Tais comemorações mundanas nada representam para Mim, a não ser que sejam consideradas cada dia, sim, cada hora no íntimo da criatura. Assim também são fúteis a lua nova, os jubileus, a festa da libertação de Jerusalém do poderio babilónico, a da reconstrução da Cidade e do Templo, a festa de Moisés, Aarão, Samuel, David e Salomão – pois têm tanto valor como a chuva caída no mar há mil anos.

No início tais comemorações são consideradas num sentido religioso, em memória de alguém ou de um facto que assistiram. Na segunda, terceira e quarta geração tornam-se numa cerimónia vã, da qual milhares nem sabem o motivo; e mais tarde convertem-se numa acção pagã.

Todavia, não quero, com isto revogar as verdadeiras comemorações; devem, apenas, não só conter a tradição anual, mas o da aplicação diária, de contrário serão sem efeito. Quanto a esta mesa, já te dei as Minhas ordens.

Diz Ebal: Será tudo realizado dentro da Tua vontade, Senhor; consideraremos as festas diárias, socorrendo o próximo em tudo que nos seja possível, comemorando assim as festas anuais.

Digo Eu: Deste modo provareis que sois Meus discípulos. Agora, levantemo-nos da mesa e vamos conversar com os pescadores, que sempre sabem contar factos extraordinários. Aqui teríamos pouco sossego, porquanto dentro de uma hora chegará uma caravana de Belém da qual fazem parte alguns fariseus com quem não quero entrar em contacto; tratai que sejam ainda hoje transportados para Sibarah.

Diz o comandante: Com muito gosto, pois para mim, não existem criaturas mais repugnantes.

Todos nos levantamos, encaminhando-nos para a praia.»



BÊNÇÃO E ORAÇÃO JUSTAS


«Pouco falo durante a refeição; quando, porém, o vinho começa a soltar as línguas, o albergue enche-se de vozes alegres e o próprio tavoleiro, encarregado da hospedaria de Lázaro, anima-se a apresentar-Me à sua família, pedindo uma bênção contra a maldição dos templários.

Digo-lhe, pois: Amigo, a Minha presença garante a bênção! Procura aplicar o Evangelho transmitido aos discípulos, que receberás a bênção viva e verdadeira, não só para esta vida, de pouca duração, mas igualmente para a tua alma eterna. A bênção que esperas nada vale. Os fariseus aplicam as suas bênçãos e deixam-se pagar por isso; quem teria lucrado com esse tipo de bênção? O doador teve a sua recompensa, enquanto ao outro, a fé teve que o consolar e proporcionar-lhe alguma paz.

A Minha bênção consiste na verdadeira Luz da Vida, ou seja a Vida Eterna, recebida por todos aqueles que aplicam a Minha doutrina. Todas as bênçãos mágicas de nada valem e aumentam mais a superstição. Quem caminha e age dentro do Evangelho, crendo ser Eu o Cristo verdadeiro, pode, em Meu nome, apor as suas mãos no enfermo que este se sentirá aliviado. Ainda que esteja a longa distância, tu, porém, orando por ele e mentalmente com fé em Mim, podes impor-lhe as tuas mãos, que ele se curará, caso essa bênção seja em benefício para a sua alma. Tal bênção é muito mais valiosa do que aquela que esperavas de Mim. Estás satisfeito?

Responde o tavoleiro: Senhor, agradeço-Te muito; pois vejo ser a verdade a maior bênção para o homem, enquanto a mentira e o embuste representam uma maldição. Desejava apenas ouvir de Ti se Deus não considera as orações dos sacerdotes e se são igualmente inúteis quando porventura alguém achar não merecer pedir ao Pai, procurando por isso um sacerdote, mediante pagamento.

Respondo: Acaso não consta: “Este povo honra-Me com os lábios, enquanto o seu coração está longe de Mim.” Como poderia beneficiar alguém, uma oração paga para o efeito? O necessitado não se atreve a orar a Deus, e o próprio sacerdote não pode fazê-lo, porquanto não acredita Nele; pois se assim fizesse, não se deixaria pagar e sim diria ao pedinte: Todo o homem – ainda que o número dos seus pecados seja idêntico às ervas da Terra e à areia do mar – pode orar a Deus com humildade e contrição, que a sua prece será ouvida pelo Pai. O amor do próximo já me impõe o dever de pedir por todas as criaturas; portanto, ora tu mesmo a Deus, para receberes alívio. Toda a oração paga é um horror para Deus.

Deste modo deveria falar um sacerdote crente, caso alguém lhe pedisse orações remuneradas. Ele mesmo não acreditando em Deus, fazendo-se pagar pela oração lida, com expressão beatífica, sem meditar ou elevar o pensamento ao Alto – é, portanto, mentiroso e impostor. Como poderia Deus considerar tal oração?

Afirmo-te: Se Deus pretendesse socorrer a quem pela suposta indignidade não se atreve a pedir-Lhe, em virtude da sua humildade, Ele não o fará para libertá-lo da sua superstição.

Se vires um necessitado orando a Deus, ajuda-o na sua penúria, presta-lhe socorro caso estejas em condições; se não tiveres nada para dar, junta a tua oração à dele, e te garanto Deus atender tal pedido. Pois onde dois ou três orarem a Mim, em verdade, sempre serão considerados. Ninguém deve dirigir-se a Deus por coisas fúteis e mundanas, que não será atendido; pedindo o necessário para o sustento material, pelo fortalecimento da sua fé e da sua alma, a oração será ouvida. Eis a situação real da oração verdadeira, uma bênção justa de Deus no coração humano! Compreendeste?

Responde o tavoleiro: Sim, Senhor, pois é a verdade simples e clara; entretanto, nunca compreendi as orações mágicas do sacerdote, pelo facto de não serem compreensíveis como real embuste. Como se esforçam em classificar gradativamente as suas fúteis orações, quando feitas por profissionais graduados e em locais santificados, cujo valor acresce, mediante pagamento mais ou menos elevado. Tal absurdo é, aliás, aceite pelos fiéis. Ai de quem os informasse não ser tal coisa do agrado do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, e seria injusto por parte Dele se fosse considerar as orações pagas, expulsando os pobres impossibilitados de pagamento. Tais orientadores populares seriam tomados como ultrajantes do Templo e quem os denunciasse teria o seu futuro garantido por toda a Eternidade.

Divino Mestre, em tais situações, não há possibilidade de viver. Este albergue é muito mais um templo para Deus do que os átrios de Salomão. Há dez anos não piso no Templo – e não pretendo fazê-lo no futuro. Mormente em época de festas comemorativas, onde as fraudes são incríveis e não consigo defrontá-las sem me aborrecer. Ajo bem, assim?

Digo Eu: Perfeitamente, pois não podes modificar a situação. É, portanto, preferível ficares afastado do local, onde nada de bom e verdadeiro poderias ouvir, e acima de tudo te irritarias como judeu íntegro. Eu vim, precisamente, para endireitar tudo o que estiver torto e abrir os olhos e ouvidos dos cegos e surdos. Deixemos, pois, o Templo cuja completa inutilidade é do conhecimento de todos.

Dentro em pouco teremos aumento de hóspedes, romanos e gregos. Certamente se hospedarão aqui e terás que preparar-te; pois na cidade não existem mais acomodações.

Solícito, o tavoleiro entrega-se à tarefa e não leva tempo para vermos a chegada de trinta pessoas, aproximadamente. A sala onde estamos é suficiente para abrigar cem hóspedes; além disso, há outros recintos, de sorte a não dar motivo para receio quanto à acomodação de estranhos, em cujo grupo vem uma senhora de Jerusalém. Posteriormente vamos travar conhecimento com ela.»



A CARIDADE. CONDUTA DAS CRIATURAS

ATRAVÉS DA PROVIDÊNCIA DIVINA


«Enquanto nos aprazamos no bosque das oliveiras, diz um dos setenta judeus, entre os quais se acha a conhecida adúltera: Como somos felizes! O mais sublime alimento espiritual para as almas é o melhor suprimento físico. Possam todos que, como nós, se encontrem na miséria inculpável, alcançar este estado. Se fosse possível, desejaria que todos os sofredores recebessem socorro, física e espiritualmente.

Digo Eu: Meu amigo, bem seria possível; mas em virtude de motivos mui sábios não é conveniente. Há grande número de pessoas cumuladas de vários males e sofrimentos, a quem desejas ajudar de acordo com o teu bondoso coração, o que Me agrada. Mas, se assim agirmos, teremos provocado justamente o contrário.

Ninguém melhor do que Eu conhece a miséria e males humanos, e não existe pessoa mais misericordiosa e bondosa do que Eu; todavia, reduzidos seriam os benefícios produzidos pelo Meu amor e a Minha misericórdia, caso a Minha sabedoria não cooperasse.

Existe, por exemplo, uma pobre família, cujos membros não têm trabalho, morada e alimento. Mendiga de casa em casa, de cidade em cidade e mal consegue saciar a sua fome, enquanto outros vivem na abundância e ainda enxotam os pobres da sua porta.

Tal proceder é maldoso e dirás certamente: Deus Omnipotente e Bondoso, como podes permitir tais abusos? Destrói criaturas como estas! – Todavia, Deus não te atenderia. Porquê? Acaso deve proliferar a falta de amor?

Não, digo Eu. Entretanto, tudo terá o seu tempo nesta Terra, pelos desígnios de Deus, onde as criaturas devem amadurecer para a verdadeira filiação divina. Deste modo, o rico tem o seu tempo de fartura para fazer caridade com o supérfluo, enquanto o pobre tem oportunidade de se exercitar na paciência e renúncia, oferecendo a sua miséria a Deus. O Pai o socorrerá a bem da sua alma e igualmente punirá o rico egoísta, em época oportuna. Pois ambos se destinam à filiação de Deus.

A referida família, em anos passados, foi muito rica, porém inclemente para com os pobres, de sorte que o destino da sua felicidade terrena foi mudado em benefício da sua alma. Caso lhe fosses dar repentino socorro, em breve se tornaria insolente, vingando-se de quem a enfrentasse com aspereza. Experimentada pela paciência, será ajudada, pouco a pouco e imperceptivelmente, reconhecendo nisto a providência divina, com resultado muito mais profícuo do que se tivesse ganho novamente fortuna.

O rico egoísta será levado gradualmente a um estado mais precário. Os seus negócios fracassarão vez por outra, levando prejuízos nas colheitas e rebanhos. Ele, ou a sua esposa e filhos adoecerão e os golpes do destino recairão sobre ele, em cheio.

Se porventura reconhecer a sua injustiça, será ajudado; não o fazendo, perderá tudo, inclusive o cajado da mendicância, sofrendo coisas ainda piores.

Quem o confortar e o ajudar receberá de Mim conforto e ajuda; ajuda integral, ninguém lhe poderá proporcionar até que a vontade divina o permita. Por isto, Meu amigo, acalma-te; já sei quem está em condições de receber socorro.»



(O Grande Evangelho de João – II – 157 – VI – 180 – VII - 92)






A CEVADA DE RUTE


“Deixa-me colher e juntar espigas por entre

os molhos após os segadores.” (Rute 2:7)


Tenho pensado em Rute.

Aflorou no meu pensamento quando pensava na imensa vulnerabilidade dos migrantes.

Quando se dão crises socioeconómicas em algum lugar, seguem-se movimentos migratórios dos locais onde escasseia o alimento, o emprego, o dinheiro, as oportunidades, a paz, a segurança, etc., para locais onde estes são mais abundantes.

Facilmente se conclui que, desde há milénios, os cereais são um forte atractivo e uma das principais bússolas destes movimentos populacionais. Rute e Noemi chegaram a Belém no princípio da sega da cevada. Tinham viajado a pé, partindo de Moabe, terra natal de Rute.

A cevada foi um dos primeiros grãos cultivados no Crescente Fértil, estimando-se que tenha sido domesticada em 8000 AC a partir do seu progenitor selvagem hordeum spontaneum. Os registos arqueológicos dão conta do cultivo da cevada em 5000 AC no Egipto, em 2350 AC na Mesopotâmia, em 3000 AC no noroeste da Europa, e em 1500 AC na China. A cevada, hordeum vulgare, foi a principal “planta do pão” dos hebreus, gregos e romanos e também de grande parte da Europa até ao século XVI. Actualmente, representa a quarta maior colheita de grãos do mundo (depois do trigo, o arroz e o milho).

Rute e Noemi estavam em luto. Rute, do marido. Noemi, do marido e dos filhos. E a história começa assim: “E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, houve uma fome na terra.” Não é certo, mas levanta-se a hipótese de ter sido Samuel o seu escritor, por volta do ano 1322 AC. Falava de fome. Pois bem, foi este o motivo que levou Elimeleque, efrateu, natural de Belém de Judá, a “peregrinar nos campos de Moabe”. Consigo foram a esposa, Noemi, e os seus filhos, Malom e Quiliom.

Moabe ficava do outro lado do Mar Morto. Terra montanhosa. Povo em frequente conflito com Israel. A língua talvez não fosse muito diferente. A religião, ao contrário da de Israel, era politeísta. A família procurou saciar a fome no campo deste povo estrangeiro. Assentaram. O marido de Noemi não mais regressou ao país natal. Noemi enviuvou. Os filhos cresceram e casaram com mulheres da terra que os acolhera, as moabitas Rute e Orfa. Depois, também estes morreram. Sobraram três mulheres, cada uma com a(s) sua(s) perda(s).

Aqueciam-se em conjunto, em torno da fogueira desolada do luto. Mulheres, em tempo de homens. Viúvas, em tempo em que eram votadas ao desprezo. Uma das quais desfilhada. Como (sobre)viver daqui para a frente?

Adaptável a um espectro climático mais amplo do que qualquer outro cereal, a cevada possui variedades em áreas temperadas, subárcticas ou subtropicais. Embora o crescimento se dê melhor em estações de pelo menos noventa dias, é capaz de crescer e amadurecer num período mais curto do que qualquer outro cereal.

Corriam rumores de que em Belém havia alimento outra vez. Esta notícia foi uma brisa de alento para Noemi. As três mulheres levantaram-se e começaram a caminhar. Para Noemi seria um regresso. Agora seria a vez de Rute e Orfa serem estrangeiras do outro lado do Mar Morto. Davam passos iguais uns aos outros quando, num instante, Noemi se deteve. Olhou para as mãos. Já tinha perdido quase todos, quase tudo. Abriu as mãos. Completamente. Não quis agarrar, não quis reter. Quis libertar, desenlaçar quem também tinha perdido muito. As suas noras. “Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os defuntos e comigo. O Senhor vos dê e que acheis descanso cada uma em casa de seu marido”, disse. Noemi beijou-as.

Levantaram a voz do sofrimento e choraram juntas. Achando que nada tinha para lhes oferecer e que nada havia para esperar, insistiu com as noras para que seguissem o caminho da casa materna. Choraram outra vez, sonoramente, juntas. Orfa despediu-se e foi. Rute, porém, apegou-se a Noemi. “Eis que voltou a tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses: volta tu também após a tua cunhada”, reiterou Noemi. Foi então que Rute declarou, férrea, irredutível: “Não me instes para que te deixe e me afaste de ao pé de ti: porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares à noite ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada: faça-me assim o Senhor, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti”. E foram. Tempo e passos. Algumas pausas.

Finalmente, chegaram a Belém. “Cheia parti e vazia cheguei”, disse Noemi. E quis mudar de nome. “Não me chamem Agradável (significado de Noemi), chamem-me Amarga (Mara), instou às suas conterrâneas saudosas. “Porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso”.

Com maior resistência ao calor seco do que outros pequenos grãos, a cevada floresce em áreas próximas do deserto no Norte de África, onde é semeada principalmente no outono. As plantações semeadas na primavera são mais bem-sucedidas nas áreas mais frias e húmidas da Europa ocidental e da América do Norte.

Olharam em volta. Os campos, brancos. Um som de vento e fricção. A sega da cevada tinha começado. As mãos rápidas dos ceifeiros tocavam harpa nas espigas. Colhiam e avançavam. Colhiam e avançavam. O apelo do estômago vazio, um pensamento que lhe exigia ocupar-se, um sentimento de apego, um desejo de cuidar de Noemi foram as mãos que empurraram Rute para o campo. Seguiu no encalce dos ceifeiros. Estes recebiam o salário ao fim de cada jornada de trabalho. Rute, não. Pediu a um dos segadores autorização para respigar. Quer isto dizer recolher as espigas e os grãos que escapassem às mãos dos segadores ou o que caísse no chão. E levava para casa. Fariam pão.

Ainda hoje, a farinha de cevada é utilizada para fazer pão de tipo ázimo (achatado) e papas, especialmente no Norte de África e em partes da Ásia, onde continua a ser um grão alimentar básico. Por conter pouco glúten, uma substância proteica elástica, a cevada não serve para fazer pão poroso (“insuflado”). Actualmente, é utilizada principalmente como forragem verde e ração para o gado; como fonte de malte para bebidas alcoólicas, especialmente a cerveja; e ainda na produção de medicamentos; para além de ser componente de flocos e farinhas para panificação.

Boaz era o dono daquele campo. Pertencia à família e geração de Elimeleque, sogro de Rute. Um servo deu conta do quanto Rute se esforçava dia após dia, do pouco descanso, e do cuidado que manifestava para com Noemi. Um olhar de graça pousou em Rute. “Que o Senhor recompense o teu feito. Que o Senhor, o Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio, te recompense ricamente”. Com estas palavras abençoou Boaz a Rute. E também com indicações aos seus servos para que favorecessem o trabalho desta estrangeira, a aproximassem das condições de trabalho dos jornaleiros e avolumassem o que esta recolhia e levava para casa.

Comentando com Noemi o sucedido, esta viu no agir de Boaz a mão providencial de Deus: Bendito seja ele no Senhor, que não tem deixado a sua beneficência nem para com os vivos nem para com os mortos. Um toque de graça humedeceu os olhos cansados de Noemi. Abriu-os e viu em Boaz um remidor. “Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice”, concordavam as conterrâneas. Com efeito, a redenção chegaria. Da viuvez de Rute, no despertar de descendência aos que tinham partido, e colocando um neto no regaço de Noemi para esta cuidar. De seu nome, Obede, viria a ser pai de Jessé, avô de David. Raiz de Jesus.

No campo científico, procura-se desenvolver variedades capazes de produzir sementes suficientes mesmo sob condições de elevada temperatura ou seca. Afinal, como nasce um redentor na aridez do luto, na secura do deserto, no calor de uma terra estranha? Eis que, de repente, Belém (Beit Lechem) volta a significar “Casa do Pão”.



Irmã Abigail Ribeiro


Bibliografia:

- “Livro de Rute” (in Bíblia Sagrada)

- Encyclopaedia Britannica (www.britannica.com/plant/barley-cereal)




UM POUCO DE HISTÓRIA



A INQUISIÇÃO


Temos ouvido falar muito sobre a Inquisição. Ao mesmo tempo, evitamos falar dela por ser algo de tenebroso. Mas não podemos esquecer que esta instituição foi uma realidade da nossa sociedade por vários séculos e responsável por inúmeros atentados à dignidade humana.

Não iremos nem queremos ser exaustivos sobre este tema. Há muita literatura sobre o mesmo. Nem tão pouco iremos falar de tópicos sórdidos ou nefastos. Pretendemos ser objectivos e apenas dar a conhecer os motivos por que esta instituição eclesiástica nasceu e cresceu.

Esta instituição da Igreja é muito antiga. Teve o seu início no século XIII (ainda não existia a ruptura na igreja ocidental entre catolicismo e o protestantismo), fundada pelo papado.

A Portugal chegou muitos anos mais tarde (em 1536 no reinado de D. João III), e foi extinta em 1821.

Em Espanha teve o seu início em 1478 e durou até 1834.

Apesar de a Inquisição existir na prática nos países da Península Ibérica, os seus tentáculos estendiam-se a quase todo o mundo, pois Portugal e Espanha eram possuidores de vastos territórios por todo o mundo da época. Eram colónias na Ásia, América Central e do Sul, África e outras.

Apesar de estarmos em pleno século XXI a Inquisição ainda existe! Tem a designação original: Congregação para a Doutrina da Fé. Esta organização católica (uma das mais antigas da Igreja) não envia hoje ninguém para a fogueira (os chamados autos de fé), mas silencia vozes incómodas e que contrariam a doutrina oficial da Igreja.

Um dos motivos que levaram a Igreja a autorizar a constituição da Inquisição foi combater as heresias surgidas dentro da própria Igreja; ou seja, a ideia inicial era fazer uma limpeza interna. Mas se começou com “boas intenções”, cedo se desviou dos seus propósitos originais.

Tempos depois do seu início, alargaram-se as suas actividades a outros sectores fora da Igreja, nomeadamente, a perseguição aos judeus e aos relapsos (impenitentes, reincidentes nas heresias). Também os místicos foram perseguidos, na maioria confundidos com feiticeiros(as).

A perseguição aos judeus foi sem dúvida uma boa fonte de rendimento para a Inquisição – sendo as vítimas condenadas, os bens (geralmente os judeus tinham bom património) revertiam a favor dos tribunais inquisitórios. Se no início os inquisidores eram sustentados pelos impostos reais, passaram então a ser auto-suficientes, o que lhes proporcionou independência em relação aos reis e à própria Igreja.

Devido ao aumento da sua influência sobre os países europeus, nomeadamente Itália, Espanha e Portugal, a Inquisição começou a julgar casos mesquinhos e insignificantes que nada tinham a ver com heresias ou doutrinas que contestavam a política do papado. Era um Estado dentro do Estado. Ou, para sermos mais precisos, uma igreja dentro da igreja.

Para uma melhor compreensão, sugiro a leitura do “Nome da Rosa” de Umberto Eco, ou mesmo a visualização do filme que foi realizado com base no livro.

Para se cair nas malhas da Inquisição bastava uma denúncia anónima. Quantos ajustes de contas foram feitos! A título de exemplo vou citar apenas um: em 21 de Janeiro de 1556, André Pires, padre de Sarzedas, denunciou António Rodrigues por ter dito que Nossa Senhora (Maria) era Judia!

A lista é longa. Os motivos variadíssimos. O medo imperava.

Nos finais do século XV os judeus que viviam em Espanha foram expulsos pelos reis católicos, Fernando e Isabel. Muitos vieram para Portugal.

Depois de alguns anos, os que escolheram Portugal para viver acabaram também por ser expulsos. Se quisessem evitar essa situação teriam que se converter à fé católica. Os que se convertiam e baptizavam eram chamados de cristãos-novos. Mas também estes não escapavam à sanha dos inquisidores que muitas vezes punham em causa a sua conversão. (Possivelmente para ficarem com os seus bens). Bastava reparar se ao sábado saía fumo das chaminés das casas dos cristãos-novos.

Outros optaram por se manterem fiéis à sua religião e acabaram nas prisões ou nas fogueiras.

Mas não pensemos que o sangue derramado foi apenas obra dos católicos. Não! Os protestantes também têm as suas mãos manchadas de sangue inocente, e não pouco. O assunto é tenebroso, mas não podemos escamotear a realidade. A religião sempre foi manchada por lutas e guerras sangrentas. Mas sobre isto falaremos noutro artigo.

Há muitos tipos de inquisição. Senão, vejamos: Ainda este ano (Fevereiro e Março, durante o chamado confinamento) uma TV generalista portuguesa transmitiu, num dos seus noticiários, uma reportagem sobre o padre de uma aldeia do concelho de Pinhel, acusando-o de celebrar uma missa para 5 pessoas (incluindo ele próprio) numa capela com espaço para 20/30 pessoas. Eram pessoas idosas que disseram que só não iriam à missa se fossem presas.

A pessoa que passou a filmagem ao canal televisivo filmou a missa (de apenas meia hora) secretamente e nem deu a cara quando fez a acusação. E o canal de televisão (que devia mostrar outras reportagens mais importantes, como por exemplo sobre a freira